Prática Econômica

Hoje, o Brasil se caracteriza por conter regiões muito diferentes entre si, mas esse fato era ainda mais acentuado nos tempos coloniais, quando, além de tudo, as comunicações eram difíceis e existiam áreas inexploradas ou desconhecidas.

 

Escravos levando Cana-de-Açúcar para ser moída no Engenho.

 

Na sua faixa litorânea, o Nordeste representou o primeiro centro de colonização e de urbanização da nova terra. A atual situação do Nordeste não é fruto da fatalidade, mas de um processo histórico. Até meados do século XVIII, a região nordestina, que era designada como o “Norte”, concentrou as atividades econômicas e a vida social mais significativa da Colônia; nesse período, o Sul foi uma área periférica, sem vinculação direta com a economia exportadora. Salvador foi à capital do Brasil até 1763 e, por muito tempo, sua única cidade importante. Embora não haja dados de habitantes em 1585, 25 mil em 1724 e cerca de 40 ou 50 mil em 1750, a metade dos quais eram escravos. Esses números podem parecer modestos, mas têm muita significação quando confrontados com os de outras regiões: São Paulo, por exemplo, tinha menos de 2 mil habitantes em 1600.

A empresa açucareira juntamente com o tráfico de escravos foi o núcleo central da ativação socioeconômica do Nordeste. O açúcar tem uma longa e variada história, tanto no que se refere a seu uso quanto à localização geográfica. No século XV, era ainda uma especiaria, utilizada como remédio ou condimento exótico. Livros de receitas do século XVI indicam que estava ganhando lugar no consumo da aristocracia européia. Logo passaria de um produto de luxo para o que hoje chamaríamos de um bem de consumo de massa.

Sob o aspecto geográfico, a cana-de-açúcar teve um grande deslocamento no espaço. Originaria da Índia, alcançou a Pérsia e dali foi levada pelos conquistadores árabes à costa oriental do Mediterrâneo. A seguir, os árabes a introduziram na Sicília e na Península Ibérica. Já em 1300, vendia-se em Bruges (Bélgica) o açúcar produzido na Espanha. No século XV, a produção das várzeas irrigadas de Valência e do Algaver (sul de Portugal) era comercializada no sul da Alemanha, nos Países Baixos e na Inglaterra.

Não se conhece a data em que os portugueses introduziram a cana-de-açúcar no Brasil. Os grandes centros açucareiros na Colônia foram a Bahia e Pernambuco. Fatores climáticos, geográficos, políticos e econômicos explicam essa localização. As duas capitanias combinavam, na região costeira, boa qualidade de solos e um adequado regime de chuvas. Estavam mais próximas dos centros importadores europeus, recebendo inclusive pessoas de diferentes locais do mundo. E contavam ainda com uma relativa facilidade de escoamento da produção, na medida em que Salvador e Recife se tornaram portos importantes.

 

 

Engenho de Cana-de-Açúcar

A instalação de um engenho constituía um empreendimento considerável. Em regra, abrangia as plantações de cana, o equipamento para processá-la, as construções, os escravos e outros itens, como gado, pastagens, carros de transporte, além da casa-grande. A operação de processamento de cana até chegar ao açúcar era complexa. Já nos primeiros tempos, importava-se em capacidade administrativa e uso de tecnologias, aprimorada ao longo dos anos.

Tanto no Brasil como em Portugal não foram instaladas refinarias no período colonial, pois a instalação e a atividade de um engenho eram operações custosas que dependiam da obtenção de créditos. No século XVI, pelo menos parte desses créditos provinha de investidores estrangeiros, flamengos e italianos, ou da própria Metrópole. Posteriormente, no séc. XVII essas fontes parecem ter se tornado pouco significativas. Pelo menos na Bahia, as duas principais fontes de crédito vieram a ser as instituições religiosas e beneficentes, em primeiro lugar, e os comerciantes. Antes de 1808 não existiam bancos no Brasil. Instituições como a Misericórdia, a Ordem Terceira de São Francisco, o Convento de Santa Clara do Desterro, além de suas funções específicas, cumpriram o papel de financiar a atividade produtiva através de empréstimos a juros.

Os comerciantes tinham com os senhores de engenho um relacionamento especial. Financiavam instalações, adiantavam recursos para se tocar o negócio e, pela própria posição que ocupavam, tinham facilidade de fornecer bens de consumo importados. As contas entre as duas partes eram acertadas no fim da safra. Muitas vezes os comerciantes aceitavam receber açúcar em pagamento das dívidas, mas a custo baixo. A história final do comércio açucareiro escapava de mãos locais e mesmo de mãos portuguesas. Os grandes centros importantes estavam em Amsterdam, Londres, Hamburgo, Gênova e tinham grande poder de fixação dos preços, por maiores que fossem os esforços de Portugal no sentido de monopolizar o produto mais rentável de sua colônia americana.

 

Navio Negreiro

O tráfico foi sem dúvida o procedimento mais importante empregado de sustentação da base econômica da cidade do São Salvador. Utilizado para suprir as regiões que utilizavam a mão-de-obra escrava constituída por negros aprisionados no continente Africano. No Brasil o tráfico negreiro começou no século XVI, expandindo-se a partir de então graças a condições favoráveis, ligadas ao sistema da grande propriedade de açúcar, tabaco, algodão, café e ao extrativismo mineral (ouro e diamantes). Também influiu no desenvolvimento do tráfico negreiro a facilidade da obtenção dessa mão-de-obra pelo apressamento direto ou por intermédio de mercadores locais.

As costas de Moçambique, Angola, Guiné, Cabinda transformaram-se em portos à espera dos tumbeiros, nome pelo qual eram conhecidos os navios que transportavam as “peças”, e assim chamados pelo alto índice de mortalidade da carga que levavam. Os portugueses, e depois os brasileiros, fizeram do negro africano uma valiosa mercadoria. Os traficantes de escravos da Bahia se abasteciam mais na África Ocidental, na região do Golfo de Benin, e os cariocas na África do centro-sul, onde ficam o Congo e Angola, e depois na costa oriental, e em Moçambique. Ao trazer escravos do continente africano, não era necessário entrar no mato para caçá-los. As próprias nações africanas “vendiam” aos traficantes outros negros de nações rivais, prisioneiros de guerra ou simplesmente capturados para serem negociados. Vendiam não, faziam escambo: trocavam por farinha, feijão, carne seca, cachaça, rolos de fumo, sal, arroz, tecidos, armas de fogo, facas, navalhas e até espelhos e bugigangas.

 

Escravos preparando tabaco.

O fumo foi uma significativa atividade destinada à exportação, embora estivesse muito longe de competir com o açúcar. A grande região produtora localizou-se no Recôncavo Baiano, em especial na área em torno da hoje cidade histórica de Cachoeira. Produziram-se vários tipos de fumo, desde os mais finos, exportados para a Europa, até os mais grosseiros, que foram importantes como moedas de troca na costa da África.

A produção de fumo era viável em pequena escala, e isso criou um setor de pequenos proprietários, formado por antigos produtores de mandioca ou imigrantes portugueses com poucos recursos. Ao longo dos anos, esse setor cresceu ao mesmo tempo em que crescia nele a presença de mulatos, porém menos da metade dos lavradores era composta de escravos.

 

Pecuária

A criação de gado começou nas proximidades dos engenhos, mas a tendência à ocupação das terras mais férteis para o cultivo da cana foi empurrando os criadores para o interior. Em 1701, a administração portuguesa proibiu a criação em uma faixa de oitenta quilômetros da costa para o interior. A pecuária foi responsável pelo desbravamento do “grande sertão”. Mais do que o litoral, foi essa região que se caracterizou por imensos latifúndios, onde o gado se esparramava a perder de vista. No fim do século XVII, existiam propriedades no sertão baiano maiores do que Portugal, e um grande fazendeiro chegava a possuir mais de 1 milhão de hectares.

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7 opiniões sobre “Prática Econômica

  1. Pedro gostei bastante do seu blog.
    O que posso dizer é que quando a produção do açucar começa a declinar e junto com isso as minas começam a aparecer em São Paulo e Minas Gerais o foco da metropole se torna outro.

    Grande beijo!!

  2. Antes de qualquer coisa, parabéns pela iniciativa de postar assuntos relacionados à história. É sempre bom ver nossas raízes circulando pelo mundo. Amigos, gostaria de ter a referência completa da imagem sobre o plantio de tabaco no recôncavo. Alguém poderia me dizer onde foi publicada? De quando é? Provavelmente do século XIX.

    • Olá Marcio Andrade obrigado pelo comentário. Está imagem de plantio do tabaco é uma Gravura de Angelo Biasioli (1790-1830). Demonstra pessoas que foram escravizadas preparando tabaco no estado da Virgínia, EUA. Porém este mesmo processo de plantio, produção e preparo deu-se no recôncavo Baiano. Indico como fonte de estudo o livro Segredos Internos – Engenhos e Escravos na Sociedade Colonial de Stuart B. SCHWARTZ. E além desse livro se possível visite o Centro Cultural Dannemann que é a mais antiga fábrica de charutos do Brasil, localizado na cidade de São Félix na Bahia, fundado na segunda métade do século XIX pelo alemão Gerhard Dannemann. Inclusive nesta fábrica o processo de fabricação dos charutos ainda é feito artesanalmente. Grande abraço

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